O encontro, ocorrido em junho, também marcou a inauguração do FabLab Rio Claro, que já realiza atividades abertas ao público

Sarah Schmidt
Cerca de 120 pessoas participaram do I Congresso de Educação, Difusão e Inovação (ED&I) do Centro Brasileiro de Geometria (CBG), realizado no dia 16 de junho na Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro. O evento também marcou a inauguração do FabLab Rio Claro (abreviação de Fabrication Laboratory, ou laboratório de fabricação, em português), um espaço aberto ao público com máquinas de impressão 3D, corte a laser, prototipagem, entre outras, com o objetivo de dar vida a projetos digitais e contribuir para a compreensão de conceitos geométricos.
O congresso integrou uma das ações da vertical temática de Educação, Difusão e Inovação (ED&I) do CBG. Organizado pela professora Rúbia Barcelos Amaral, da Unesp de Rio Claro, Coordenadora de Difusão, e com a participação do professor Marcelo Firer, da Unicamp, Coordenador de Inovação, entre outros pesquisadores, o congresso reuniu apresentações dos projetos que serão realizados ao longo dos próximos anos, com o objetivo de impactar o ensino e a aprendizagem de matemática no ensino básico.
“O lançamento do CBG ocorreu em fevereiro deste ano, durante um workshop realizado na Unicamp. Esse congresso de ED&I é importante porque marca oficialmente a chegada do projeto aqui em Rio Claro, fortalecendo a ideia do CBG na nossa cidade”, observa Amaral. A equipe do CBG na Unesp conta com 21 pessoas entre pesquisadores (as), professores (as) da educação básica e bolsistas que vão dos níveis técnico ao pós-doutorado, que se reúnem todas as terças-feiras.
Projetos
“O objetivo é que o CBG seja também um embrião de um centro de referência para pesquisa e desenvolvimento voltado para o ensino e aprendizagem de matemática”, observa Firer. Em sua apresentação, o pesquisador destacou algumas questões que o centro quer ajudar a enfrentar: a inclusão de surdos no ensino de matemática – uma das lacunas, por exemplo, é a falta de termos matemáticos sem sinal em Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Outro desafio está no aprendizado da disciplina: em sua fala no encontro, Firer destacou que, após a pandemia de Covid-19, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo constatou defasagem de aprendizagem média de 6,5 anos ao final do ensino médio. Ela começa cedo: “No 3º ano do ensino fundamental, aos 9 anos de idade, há evidências de defasagem de 2 anos em relação à Alemanha”, explica Firer.
Outro ponto a ser trabalhado são os chamados exercícios “simples demais” nos problemas matemáticos trabalhados em sala de aula, que muitas vezes são artificiais e distantes da complexidade e dos desafios do mundo real, o que pode empobrecer o desenvolvimento do raciocínio matemático dos estudantes.
Para combater esses desafios, estão em desenvolvimento algumas soluções, sob coordenação do professor da Unicamp. Uma delas, que integra o projeto Libras+Matemática, é a criação de um site com a resolução em Libras de todas as perguntas de matemática do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o que deve gerar mais de 1,2 mil vídeos curtos.
Outros materiais a serem criados são um dicionário de matemática em Libras, incluindo variações regionais e oficinas para trabalhar a formação de jovens surdos para produzir conteúdo de ensino em libras. Ainda estão previstos o desenvolvimento de um pacote de recursos para uso em sala de aula, incluindo material didático para alunos e professores.
Já sob a coordenação de Amaral há cinco projetos em andamento. O primeiro deles usa óculos de eye tracking (rastreamento ocular), tecnologia que monitora e registra os movimentos dos olhos, para identificar processos cognitivos e de aprendizagem de estudantes dos anos finais da educação básica e do ensino médio, como, por exemplo, como processam enunciados, figuras e problemas matemáticos.
O segundo é voltado para alunos deficientes visuais da educação básica, com a elaboração de materiais táteis com impressora 3D e termoformadora”, explica Amaral. O terceiro projeto é a análise de como a geometria está inserida nos livros didáticos do ensino básico.
Outro projeto relacionado às áreas STEAM (Science, Technology, Engineering, Arts and Mathematics; em português, Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) tem duas vertentes: uma delas é a formação de professores – atualmente há 10 professores bolsistas de sete escolas diferentes. “Quatro das escolas em que esses professores trabalham têm impressoras 3D, mas não há pessoas que saibam utilizá-las. Para isso, é preciso um treinamento. Por isso é importante trabalhar a cultura maker do FabLab, do aprender fazendo, com esses educadores”, diz Amaral.
Uma das ações desse projeto são os chamados Open Day, em que estudantes e demais interessados (as) podem visitar as instalações e imprimir seus protótipos, acompanhados por monitores. O FabLab Rio Claro iniciou essas atividades interativas no dia 19 de junho, e desde então o espaço tem recebido grupos de estudantes do ensino básico, organizados por faixa etária, além de alunos de graduação e demais interessados (as). Quem quiser participar do Open Day pode agendar uma visita neste link.
Essa parceria com o FabLab é importante porque, além do trabalho desenvolvido com a comunidade, ela servirá de modelo para outros campi que já tenham FabLabs e que venham a se tornar pontos de difusão do CBG”, finaliza a professora da Unesp.
Sobre o CBG
O CBG é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), sediado na Unicamp. A iniciativa conta com uma ampla rede de pesquisadores de diversas instituições acadêmicas espalhadas pelo país e é o primeiro centro especializado em geometria na América Latina e no Sul Global. Suas ações estão organizadas em quatro verticais temáticas: Geometria Diferencial, Geometria Algébrica, Aplicações de Geometria e Educação, Difusão & Inovação.
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